sábado, 27 de fevereiro de 2010

BURKE, Peter. Uma história social do conhecimento: de Gutemberg a Diderot. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. 241 p.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

Professores: Aires José Rover, PhD
Tutora: Marisa Carvalho, Msc
Aluno: Luiz Antonio Schalata Pacheco
Resumo do Livro:
Capítulos:
I: Sociologias e Histórias do Conhecimento: Introdução / II: O Ofício do Saber:
Os Letrados Europeus / III: A Consolidação do Conhecimento: Antigas e Novas
Instituições / IV: O Lugar do Conhecimento: Centros e Periferias / V: A
Classificação do Conhecimento: Currículos, Bibliotecas e Enciclopédias / VI: O
Controle do Conhecimento: Igrejas e Estados / VII: A Comercialização do
Conhecimento: O Mercado e a Impressão Gráfica / VIII: A Aquisição do
Conhecimento: A Parte do Leitor / IX: A Confiança e a Desconfiança no
Conhecimento: Uma Coda
Capítulo I – Sociologias e Histórias do Conhecimento:
Introdução
O autor, Peter Burke, analisa a construção do conhecimento humano em sociedade no período compreendido entre a invenção da prensa tipográfica por Johannes Gutenberg, em 1450, e a publicação da Enciclopédia Francesa, em 1750, produção de Denis Diderot que buscava abarcar todo o conhecimento que a humanidade havia produzido até então. Burke analisa as mudanças na organização do saber tendo como foco a Europa no início da era moderna. Ele também trata o tema onde outras formas de imprensa existiam, como China e Japão, mas sua ênfase está no conhecimento da elite européia no início da era moderna, com bases em textos produzidos nos séculos XVI, XVII e XVIII e sob influência de Michel Foucalt, Max Weber entre outros.
No capítulo inicial o autor introduz o tema da sociologia e história do conhecimento, justificando o período de tempo escolhido para abordagem no livro.
Versando sobre conhecimento, o autor evidencia algumas questões que são importantes ter esclarecidas durante a leitura:
- Ele classifica “informação” como o que refere-se ao que é
relativamente “cru”, específico e prático, e “conhecimento” para denotar o que
foi “cozido”, processado ou sistematizado pelo pensamento.
- Esclarece que as discussões são sobre o que as pessoas no início da modernidade consideravam como conhecimento - e não o que ele ou os leitores porventura considerem como tal. Dessa forma, o conhecimento da magia, da bruxaria, dos anjos e dos demônios faz parte do estudo.
- A sabedoria não é cumulativa, tendo que ser adquirida de forma mais ou menos penosa por cada indivíduo. No caso do conhecimento, houve e ainda há tanto progresso quanto retrocesso ao nível individual. No fechamento do capítulo, falando sobre a pluralidade dos
conhecimentos, Peter Burke mostra a importância dos conhecimentos práticos populares (presente nos diferentes grupos sociais como burocratas, artesãos, parteiras, curandeiros, camponeses, etc) destacando seu papel. Segundo ele em inúmeros campos, homens e mulheres práticos, assim como acadêmicos tinham algo com o que contribuir para o conhecimento impresso.
Capitulo II – O Ofício do Saber: Os Letrados Europeus
O segundo capítulo intitulado “O Ofício do Saber: os Letrados Europeus”, mostra que os intelectuais da época da Europa Medieval eram muito ligados ao clero. Nessa época as universidades iniciam e os professores universitários são praticamente todos membros do clero, fato que faz com que a Igreja medieval exerce o monopólio do conhecimento.
O autor destaca que uma das conseqüências da impressão tipográfica é o fato de que, embora ainda fosse difícil, se tornava um pouco mais fácil seguir a carreira de “homem da letras”, pois passam a surgir empregos assalariados para esse grupo.
Houve um aumento significativo de estudantes nos séculos XVI e XVII e os professores universitários passam a ter uma identidade diferenciada de outros grupos.
Capitulo III – A Consolidação do Conhecimento: Antigas e Novas Instituições
O capítulo III discute a consolidação do conhecimento. Nele Burke mostra a universidade medieval como transmissora de saberes: “Nessa época, admitia-se como indiscutível que as universidades deviam concentrar-se na transmissão do conhecimento, e não em sua descoberta” (p. 38).
O debate era incentivado, sendo que havia uma “disputa” formal, um sistema de argumentações como uma corte de justiça em que indivíduos diferentes defendiam ou criticavam diferentes “teses”. As universidades desempenhavam sua função tradicional de ensinar efetivamente, mas não eram, em termos gerais, os lugares em que se desenvolviam idéias novas. Segundo o autor sofriam de “inércia institucional”, mantendo usas tradições corporativas ao preço do isolamento em relação as novas tendências Burke discute os movimentos culturais do Renascimento, da Revolução Científica e do Iluminismo como processos de inovação intelectual pois envolviam a rejeição tanto da tradição clássica quanto medieval, inclusive de uma visão de mundo baseada nas idéias de Aristóteles e Ptolomeu.
Assim como o movimento humanista associado ao Renascimento, os adeptos da “nova filosofia” (associados ao movimento conhecido como Revolução Científica) tentaram incorporar conhecimentos alternativos as saber estabelecido. Por exemplo, a química deve muito à tradição artesanal da metalurgia. A botânica a partir do conhecimento dos jardineiros e curandeiros populares. Uma série de estudos publicada recentemente, a partir de 1970, crítica a visão tradicional de que as universidades eram contrárias a “nova filosofia” ou que pelo menos faziam pouco para seu avanço. Os argumentos é de que o
estudo da matemática e da filosofia natural tinha lugar importante nas universidades que a crítica das universidades era desinformada, quando não tendenciosa.
Burke avalia que é necessário fazer distinções para avaliar se as universidades não eram a origem das das idéias novas, ou se eram lentas em sua transmissão ou se opunham a elas. É necessário distinguir entre diferentes universidades, diferentes momentos, diferentes disciplinas e inclusive diferentes questões.
No movimento do Iluminismo marca um ponto de inflexão na história do
conhecimento europeu. Institutos de pesquisa aparecem nessa época, e a própria idéia de pesquisa. Como a alfabetização era crescente e havia já a divulgação da
imprensa, cresciam os locais de encontro de intelectuais e as discussões, nesse nível, ocorriam então, também fora das universidades.
Capitulo IV – O Lugar do Conhecimento: Centros e Periferias
No quarto capítulo o autor examina a geografia do conhecimento discutindo “lugar do conhecimento: centros e periferias”. Nele, Burke afirma que o conhecimento não se distribuía igualmente por toda a Europa da época. O tema do capítulo – seguindo trabalho recentes sobre geografia e história da ciência – é essencialmente uma “distribuição espacial” do conhecimento, de lugares em que o conhecimento foi descoberto, guardado ou elaborado, e também daqueles para os quais era difundido. (p. 56). O que as pessoas sabiam estava relacionada ao lugar onde viviam. As sedes tradicionais do conhecimento, como o mosteiro, a universidade e o hospital (e, para as notícias, a taberna e a barbearia) se juntaram novos lugares – o laboratório, a galeria de arte, a livraria, a biblioteca, o anfiteatro de anatomia, o escritório e o café (p. 56).
Houve um aumento do tamanho e da importância da biblioteca depois da invenção da imprensa, sendo que esta começava a rivalizar dentro da universidade com a sala de conferências. Em 1639, a Universidade de Louvain ainda declarava que uma biblioteca era desnecessária porque “os professores eram bibliotecas ambulantes”, mas em Leiden, ao contrário, a biblioteca abria duas vezes por semana e os professores emprestavam as chaves aos estudantes. Fora da universidade, algumas bibliotecas se tornaram centros de
estudos. Locais de sociabilidade culta e troca de informações e idéia, além de serem locais de cultura. A exigência de silêncio nas bibliotecas teria sido impossível e até inimaginável nessa época. Sedes de conhecimento se multiplicavam e se tornaram mais especializadas em cidades relativamente grandes como Veneza, Roma, Paris Amsterdã e Londres (cidades que o autor destaca como necessárias a receber
uma atenção maior nas páginas de seu livro durante esse capítulo). A história do conhecimento nos primórdios do mundo moderno é às vezes vista em simples termo da difusão da informação e, em particular, da informação científica, da Europa para as outras partes do globo. Esse modelo é criticado por deixar de levar na devida conta os fluxos de conhecimento da periferia para o centro. A ênfase é dada na crescente consciência, por parte dos europeus, do mundo para além da Europa, consciência essa alimentada por interesses religiosos, econômicos e políticos. As cidades européias passam a ser fontes de informações sobre si mesma, pois quanto maior a cidade, maior a necessidade de guias, na forma de pessoas ou livros. Então, como conseqüência dessa demanda da sociedade por informações, há uma proliferação dos serviços de informação nas primeiras cidades modernas sob a forma de catálogos, guias e livros de endereços. Passa-se do conhecimento centralizado à necessidade de seu compartilhamento e de distribuição, o que aumenta a necessidade de traduções e as reproduções de documentos e livros.
Capitulo V – A Classificação do Conhecimento: Currículos, Bibliotecas e Enciclopédias
O quinto capítulo trata da classificação do conhecimento. O autor criar categorias de classificação para o conhecimento considerando a cultura do início da Europa moderna. É dado ênfase nesse capítulo a Currículos de Universidade, Bibliotecas e Enciclopédias, que são colocados como o “tripé intelectual” ou subsistemas do sistema de conhecimento.
No início da Europa moderna, o conhecimento era classificado por grupos diferentes de maneiras também diferentes. Haviam distinções entre o conhecimento teórico e o prático, ou seja, o conhecimento dos filósofos e dos empíricos, ou como alguns diziam na época “ciência” e “arte”. Um exemplo prático dessas distinção de categorias ocorreu na construção da Catedral de Milão, por volta de 1400, onde se desenvolveu uma disputa entre o arquiteto francês e os mestres-de-obra locais. Esses últimos diziam que a ciência da geometria não deveria interferir nessas questões, pois a ciência é uma coisa e a arte é outra”. O arquiteto respondeu que “a arte sem ciência” (a prática sem a  teoria) “não é nada”. Havia também a distinção entre o conhecimento público e o privado.
Privado não sentido pessoal, mas no sentido de informação restrita a um grupo particular da elite. O conhecimento privado incluía segredos de Estado, segredos da natureza (estudados como filosofia oculta), segredos alquímicos ou técnicos. A questão acerca de que tipo de conhecimento deveria se tornar público era controversa, e respondida de maneiras diferentes por diferentes gerações e em diferentes partes da Europa.
Também era distinto o conhecimento legítimo e o conhecimento proibido, os arcana Dei, conhecimento que deveria ser mantido em segredo não só do público em geral, mas de toda a humanidade. Havia debates sobre até que ponto a curiosidade intelectual era legítima, ou não passava de uma “vaidade” ou pecado.
O conhecimento também se distinguia entre alta e baixo conhecimento lembrando a importância da hierarquia na organização intelectual do conhecimento no período. O conhecimento masculino, inclusive o conhecimento da esfera pública, era visto, ao menos pelos homens, como superior ao conhecimento feminino, mais ou menos limitado à piedade e ao domínio doméstico. O conhecimento especializado era contrastado com o conhecimento geral ou universal. Existia no início o ideal do “homem universal”, ou seja, do polímata, “aquele que é capaz de aprender muitas coisas e tornar-se universal”. Saber tudo, ou pelo menos saber alguma coisa sobre tudo, continuo como um ideal ao longo
de grande período. “Dificilmente será um bom sábio aquele que não possui conhecimentos gerais.” São apresentadas figuras que dão a idéia do conhecimento como uma grande árvore cheia de galhos e brotos tentando traduzir a noção de apresentação da cultura como se fosse a natureza. Esse ideal (do polímata) foi gradativamente abandonado sendo que
alguns escritores da época observavam a crescente fragmentação do conhecimento. “Partimos as artes e a ciências em fragmentos, de acordo com a limitação de nossas capacidades, e não só não somos pansóficos (não temos todo o saber) para ver o todo, como somos monotemáticos. Passa a surgir a figura do intelectual especializado e a figura do árvore do conhecimento dá lugar a idéia de sistema. Burke então análise os três subsistemas: os currículos, as bibliotecas e as enciclopédias.
Esses três elementos, segundo o autor, repercutem diretamente na reorganização do sistema de conhecimento e de reprodução cultural. As mudanças nos currículos universitários fizeram com que as ciências e as áreas do conhecimento se ramificassem, que por conseqüência forçou uma nova estruturação nas bibliotecas coma busca de novas formas de organização e classificação. Com a multiplicação cada vez mais rápida do número de livros teve-se que repensar a forma de classificação nas bibliotecas. Em 1550, após a invenção da imprensa, o fluxo de novos livros chegou a alarmar os estudiosos: “há tantos livros que nem temos tempo de ler seus títulos”. Havia uma “desordem dos livros” que precisava ser posta sob controle. Adotou-se então várias soluções para classificação como divisão por categorias ou por assuntos. O autor comenta que o mesmo problema referente a classificação existia também nos museus ou “gabinetes de curiosidades” como eram chamados, pois não havia tradição medieval que os donos ou curadores dos
museus pudessem seguir ou adaptar. As enciclopédias seguindo as modificações dos currículos e das
bibliotecas também inovaram e adotaram a alfabetação com forma de
classificação.
Capitulo VI – O Controle do Conhecimento: Igrejas e Estados
O sexto capítulo trata do “Controle do Conhecimento” onde o autor aborda os processos de coleta, armazenamento, uso e supressão de diferentes tipos de informação por parte das duas grandes organizações da época – Igreja e Estado. Desde os tempos antigos, os governos estiveram interessados em coletar e armazenar informações sobre os povos que controlavam, mas foi só no princípio da era moderna que a coleta regular e sistemática de informações se tornou parte do processo de governo na Europa, levando ao surgimento da burocracia nos Estados. O autor cita um sociólogo contemporâneo que afirma que “todos os
Estados foram 'sociedades da informação', pois a geração do poder de Estado pressupõe a reprodução monitorada do sistema, envolvendo a coleta, armazenamento e controle regulares da informação aplicada a fins administrativos”.
A Igreja católica era o maior exemplo da burocracia européia, pois era uma instituição construída em escala mais grandiosa do que qualquer monarquia européia, com o clero praticamente detendo o monopólio da alfabetização. Depois do Concílio de Trento, ocorrido em 1563, estimulados pelo temor da heresia, foi determinado que párocos da Igreja católica mantivessem registros dos nascimentos, casamentos e mortes o que gerou um volume de registros enorme. Mais tarde, também foram feitos levantamentos dos dissidentes a partir de questionários enviados para os párocos onde fica clara a ligação entre a coleta de informações e o desejo de controle do “rebanho”. A instituição eclesiástica mais interessada na reunião de conhecimento foi a Inquisição, na Espanha, Itália e outras terras.
O autor destaca a coleta sistemática de conhecimento pelas grandes potências européias para dominar outras partes do mundo. Ele cita, como exemplo, os impérios ultramarinos – português, espanhol, holandês, francês e britânico – que dependiam dessa coleta de informações. E ainda, que quando partes de outros continentes eram incorporadas aos impérios europeus, tornava-se necessário adquirir conhecimentos sistemáticos sobre a terra, seus recursos e seus habitantes.
Na seqüência é comentado sobre o surgimento da cartografia como instrumento de governo nesse período, pois boa parte das informações que interessavam aos funcionários do governo estavam registradas na forma de mapas. O propósito dos mapas era para que se pudesse estabelecer fronteiras, defender o Estado contra seus inimigos ou facilitar o planejamento e assim racionalizar administração.
A medida que aumentavam de volume, os registros passaram a precisar de repositórios especiais, dessa forma passou a haver uma centralização de documentos e livros em prédios construídos especificamente para o armazenamento e consulta pública desse material, como arquivos e bibliotecas, nos principais centros urbanos europeus.
No final do capítulo o autor comenta sobre o sistema de controle imposto à leitura de livros, ou seja, a censura, que era realizada tanto pela Igreja quanto pelos Estados. O sistema de controle mais famoso e de maior amplitude era o da Igreja católica e estava associado ao Índex de Livros Proibidos. O índex foi criado para combater o protestantismo e a imprensa, sendo que a maioria dos livros incluídos na lista eram obras de teologia protestante. Assim como as Igrejas, e seguindo o modelo delas, os Estados dos primórdios da Europa moderna organizaram sistemas de censura da palavra impressa temendo a “sedição” (crime contra a segurança do Estado) tanto quanto as Igrejas temiam a heresia. Porém, controlar as informações não era fácil e boa parte da informação era difundida, oficial ou extra-oficialmente.
Os governos às vezes precisavam tornar públicas informações para seus próprios propósitos. Era vantajoso disseminar o conhecimento das leis e outros decretos, que eram regularmente proclamados em voz alta além de impressos e fixados em locais públicos. O problema era manter o equilíbrio entre dar ao público informação de menos, situação que incentivaria os rumores mais exagerados, e dar -lhes informações demais, o que incentivaria as pessoas comuns a e pronunciarem sobre questões de Estado.
Capitulo VII – A Comercialização do Conhecimento: O Mercado e a Impressão Gráfica
O capítulo 7 trata da comercialização do conhecimento nos primórdios da Europa Moderna que ocorreu a partir da proliferação da produção e venda de livros, atlas, periódicos jornais e enciclopédias. Segundo o autor essa abertura de informações teve conseqüências como o nascimento da propriedade intelectual, a especialização das fontes de informação e a surgimento das obras de referência para tentar solucionar o problema da “recuperação da informação”, ou seja, encontrar a informação quando necessário... problema antigo que ainda hoje persiste. A impressão permitiu a impulsão o comércio do conhecimento, sendo
que a publicação de livros virou um negócio que atraía o interesse de negociantes e esses ajudavam a financiar impressores no século XV. A impressão encorajava a comercialização de todos os tipos de conhecimento. A invenção da imprensa envolveu os empreendedores de maneira mais direta no processo de difusão do conhecimento. Os impressores às vezes
encomendavam novas edições de textos clássicos, traduções e obras de referência. A grande quantidade de informações não era exclusivamente publicada em livros, mas também em jornais e revistas. O autor reforça a existência do plágio durante esse período e comenta que a medida que o lucro aumentava, aumentava também a urgência em proteger a propriedade literária e intelectual por meio de leis gerais.
Fazendo estudos de caso sobre a comercialização do conhecimento, incluído a pirataria, são analisadas três centros editoriais: Veneza no século XVI, Amsterdã no século XVII e Londres no século XVIII. Ao final do capítulo o autor concluí que nos primórdios da Europa
moderna o conhecimento estava ligado cada vez mais intimamente a produção via impressão, e isso levou a um sistema de conhecimento mais aberto. A invenção da prensa tipográfica criou um novo grupo social com interesse em tornar público o conhecimento. Isto não quer dizer que a informação se tornou pública apenas por razões econômicas; rivalidades políticas às vezes levavam um governo a revelar os segredos do outro. O mercado de informações cresceu em importância nesse período, sendo até o conhecimento acadêmico afetado por essa tendência.
Capitulo VIII – A Aquisição do Conhecimento: A Parte do Leitor
O oitavo capítulo analisa a aquisição do conhecimento por parte do Leitor, enfatizando que essa aquisição depende não só da possibilidade de acesso a acervos e informação, mas também da inteligência, pressupostos e práticas individuais. O autor comenta sobre formas diferentes de leitura: a leitura chamada de “intensiva”, que consiste da leitura da obra em sua totalidade, do início ao fim e da leitura mais superficial e fragmentada, denominada “extensiva” onde o leitor folheia, passa os olhos, realiza consultas ao texto. As obras de referência, por exemplo, incentivavam essa leitura extensiva.
Mudanças no formato físico dos livros nesse período deixam claro que muitos deles se destinavam a outros usos que não a leitura cerrada ou intensa. Índices remissivos e sumários eram cada vez mais freqüentes. Na seqüência ocorre uma discussão sobre a forma de organização da grande quantidade de livros já existentes falando da classificação por tema que vinha sendo substituído pela classificação por ordem alfabética onde, segundo o autor, essa mudança (de sistema temático para sistema alfabético) não era uma mera mudança de menor para maior eficiência, mas refletia uma mudança na visão do mundo, uma perda na fé da correspondência entre o mundo e a palavra, correspondendo também a uma mudança na maneira de ler.
Capitulo IX – A Confiança e a Desconfiança no Conhecimento: Uma Coda
O livro finaliza com o capítulo intitulado “A Confiança e a Desconfiançano Conhecimento: uma Coda”, onde Peter Burke analisa que a difusão do material impresso gerou grande quantidade de informação publicada numa maior área geográfica e isso resultou em diferentes relatos sobre um mesmo fenômeno, fato que culminou na chamada “crise do conhecimento” entre o período de 1680 a 1715. Houve uma vulgarização do conhecimento, e por isso, o ceticismo, o questionamento e a crítica a autoridade intelectual tornaram-se dominantes. Como tentativa de contornar essa “crise de consciência européia” surgem o
método geométrico e o empirismo como forma de validação de um conhecimento.

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